O MELHOR É ENGOLIR A DOR

É melhor engolir a dor.
Ela lá dentro deixa a gente mais forte e mais consistente.
Já ouvi muito que homem não chora,
e de fato não devia.
Tudo isso eu já sabia, mas acredito que quem diz mente.


Não dá para ir para a guerra chorando,
não dá para ir para a caça hesitando,
não dá para defender a mulher e os filhos somente se lamentando.

Então faço força para não chorar.
Já perdi minha mãe,
já perdi um irmão ainda muito jovem,
e sei que vou perder muito mais.
Mas quero ser forte o suficiente
para conter o choro insistente.

Mas como ser forte,
se só de imaginar a minha sorte
a lágrima já quer cair,
e não existe lugar, lugar seguro para ir.

Então eu aperto o peito,
como quem fecha um portão.
Engulo seco o que dói
e guardo tudo no coração.

Porque a vida não espera,
nem pergunta se está pronto.
Ela chama para a luta
e cobra cada confronto.

Aprendi que a dor molda o homem,
como o fogo molda a lâmina da espada.
Cada perda vira marca,
cada marca vira estrada.

Às vezes a lembrança vem forte,
como vento antes da tempestade.
Traz o rosto de quem se foi
e a dura sombra da saudade.

E ali o peito aperta,
e a lágrima quase cai.
Mas homem aprende cedo
que nem toda lágrima sai.

Porque seguir também é luta,
mesmo quando tudo pesa.
Ser forte não é não sentir,
é ficar de pé na incerteza.

Então sigo com meus fantasmas,
com a dor que o tempo não levou.
Carregando no silêncio
tudo, tudo aquilo que o amor deixou.

Dedicatória

Dedico este texto à minha mãe,
presença que o tempo não leva da vida.
Ela não escrevia em prosa, como eu escolhi fazer,
mas punha em versos o seu modo de ver.

Eu sigo em linhas mais longas, no meu caminhar,
ela fazia da rima um jeito, seu jeito de falar.
Se hoje me aventuro nesse ofício de dizer,
é porque muita coisa em mim nasceu do seu viver.

Talvez eu tenha escolhido outro rumo, outra estrada,
mas trago da sua voz minha emoção moldada.
E mesmo que a prosa hoje seja a minha escolha e abrigo,
sei que muito do que escrevo ainda vem de antigo. Porque antes da frase veio o seu sentimento,
antes da minha escrita veio o seu ensinamento.
E se escrevo do meu modo, com verdade e apreço,
é à senhora, minha mãe, Dona Leci, que devo o começo.


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