Precisei de cinquenta anos de existência e de um filme da Disney para entender o que significa, de fato, “deixar pra lá”.
Frozen, um filme “para meninas”, me ensinou o que a vida inteira tentou mostrar sem que eu percebesse: que o verdadeiro desapego não é fuga. É libertação.
A música dizia Let it go, e, pela primeira vez, eu ouvi de verdade.
Ouvi com o ouvido de quem já viveu o suficiente para entender o peso de segurar o que já deveria ter soltado.
Deixar pra lá os erros dos nossos pais que, de algum modo, resvalaram em nós.
Deixar pra lá as coisas que fizemos de errado e que, inevitavelmente, também resvalaram em outras pessoas.
Deixar pra lá qualquer rancor, porque ele não resolve nada; só nos faz revisitar a dor das feridas que já cicatrizaram.
Deixar pra lá o fato de ter colocado a vida profissional nas mãos de terceiros, acreditando que o caráter dos outros funcionava como o nosso.
Deixar pra lá o orgulho ferido, as promessas que não se cumpriram, as palavras que ficaram atravessadas.
Cada “deixar pra lá” não é esquecimento, é libertação.
Não é apagar, é escolher não carregar.
É admitir que o passado existe, mas não precisa mais conduzir o presente.
E, no fim, perceber que amadurecer não é carregar certezas e sim soltar o peso que elas exercem sobre a alma.
Talvez seja preciso mesmo chegar aos cinquenta, assistir a um filme “para meninas” e cantar baixinho, pra mim mesmo, como um mantra:
“Let it go, Let it go…”
E naquele “deixar pra lá”, finalmente, encontrar o lugar onde posso ficar em paz.
“Dedico este texto à minha filha Maria Luiza de 8 anos, sem a qual eu nunca teria assistido Frozen.”


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