A Diferença Entre Saber e Querer Saber

Conviver com pessoas de diferentes mundos é um privilégio raro e uma das maiores fontes de aprendizado que a vida oferece, embora desgastante.
Como supostamente disse Galileu Galilei: “Nunca encontrei alguém tão ignorante que não pudesse me ensinar alguma coisa.”

Essa verdade ecoa na prática. Às vezes, quem menos esperamos é quem mais tem a oferecer, se estivermos abertos a aprender. Outras vezes, a arrogância de quem acha que sabe se torna um bloqueio tão grande que nem mesmo o conhecimento mais básico consegue atravessar.

Outro dia, um lavador de telhado quis me ensinar princípios de eletricidade. Tentou me convencer de que uma lavadora de 220V dele era mais “forte” do que a minha de 127V, com base apenas na tensão, ignorando o conceito mais elementar de potência elétrica. Expliquei que potência se mede em watts, e que 2000W são 2000W, seja qual for a tensão. Mas ele refutou com convicção. Eu ouvi, balancei a cabeça e deixei pra lá. Não por arrogância, mas porque percebi ali algo que vai além da ignorância: a convicção de quem não quer aprender.

A isso, chamo de ignorância com orgulho, aquela que se recusa a ouvir, que transforma o erro em bandeira, que desacredita o conhecimento só porque não o entende. É a forma mais perigosa de ignorância, porque ela fala alto, com convicção, e se fecha para qualquer luz que tente entrar.

Em contraste, penso na minha jardineira. Estudou até a quarta série do ensino primário. Nunca frequentou faculdade. Mas ouve tudo que explico sobre automação, circuitos eletrônicos, sensores, lógica de funcionamento, ferramentas, investimento e comportamento. Ela presta atenção como se estivesse vendo mágica, mas não se contenta com o encanto: pergunta, reflete, associa. Aprende.

E não só isso: conhece plantas como quem lê poesia, cozinha pratos típicos e tradicionais com a precisão de um chef e é capaz de cuidar de uma casa, subir em árvores, pintar, consertar canos, instalar luminárias, levantar paredes. Tudo com excelência.

Mas o que mais me impressiona é a trajetória. Já enfrentou rejeição, estupro, drogas, morte de filhos. E ainda assim, não endureceu. Se reergueu. Em dois anos numa igreja, estudou a Bíblia com profundidade  e conhece passagens de cor, compreende a filosofia da vinda de Cristo como poucos. Tem uma leitura de mundo rara.

Tenho 50 anos, assim como ela. E sei que essa idade traz consigo algo que não tínhamos aos 20: destreza prática, foco, objetivos mais claros, menos tempo a perder com o que não importa. A maturidade ajuda o aprendizado, sem dúvida. Experiência, senso crítico e visão do todo fazem muita diferença.

Mas a memória… ah, essa é outra história.

Pra mim, às vezes parece uma pedra no caminho: nomes somem, datas embaralham, detalhes escapam. Mas pra ela, não. E é aí que percebo que talvez não seja exatamente uma questão de memória, mas de necessidade de lembrar. Ela grava passagens da Bíblia, absorve conceitos de elétrica, retém nomes de espécies vegetais e preferências de clientes com uma nitidez impressionante.
Como se cada coisa que aprende estivesse diretamente ligada ao seu propósito de vida.
Como se a lembrança não viesse da mente, mas da alma.

Nem toda droga que tocou a sua juventude foi capaz de apagar isso. A verdade é que ela não apenas aprende, ela incorpora. E esse tipo de inteligência não se mede em testes de QI, nem se ensina em curso algum.

Essa experiência me ensinou o seguinte:
Nunca subestime quem quer aprender. E nunca superestime quem já parou de aprender.

O valor de uma pessoa não está no quanto ela sabe, mas no quanto ela quer saber.
E nisso, minha jardineira é uma das pessoas mais inteligentes que conheci.


Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *