A Tutela do Perigo

Não é que eu não goste que cuidem de mim. Eu adoro isso.

O que não suporto é que me digam o que tenho que fazer.

Cheguei aos cinquenta passando por muitos perrengues.

Desde a infância, vivi cercado de riscos que fariam qualquer adulto suar frio hoje.

Brincadeiras perigosas, descidas de bicicleta em ladeiras absurdas, corridas sem freio, explosões improvisadas com o que não devia, um laboratório da imprudência movido por curiosidade, coragem e um certo grau de consciência.

E posso dizer, sem vaidade, que só estou vivo graças a essa consciência do perigo.

Até da laje já caí, e aprendi na queda o que é realmente perigoso e até onde se pode ir antes que o chão mostre seu poder.

Não que eu tenha parado de correr riscos, claro que não.

Mas a vida me ensinou a administrá-los,

a distinguir entre o risco que ensina e o risco que destrói.

E nisso adquiri uma liberdade que me move com força, a de não aceitar tutela.

Desde muito cedo decidi seguir conforme minha própria consciência.

Larguei as rédeas dos meus pais antes do tempo, não por rebeldia, mas por necessidade de respirar o ar da minha própria existência.

Com todo esse aprendizado, o risco se tornou controlado.

E se algo ruim vier a me acontecer, provavelmente será por acidente,

ou porque a vida está apenas cobrando o preço das coisas ruins que já fiz.

Mas ninguém é de ferro.

Também tenho o direito de fazer coisas ruins,

não para os outros, mas para mim mesmo,

afinal, nunca tive a pretensão de ser nenhuma Madre Teresa de Calcutá. Isso seria chato demais.

Assim como tenho o direito de fazer coisas boas.

Isso é viver: se expor aos riscos que a vida apresenta e, desde que tragam prazer, eles são válidos.

Como dizia minha avó:

“Gosto é o regalo da vida!

E a vida sem regalo não tem por que ser vivida.”

Viver é aceitar os riscos, inclusive o de errar.


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