Chegar, esse gesto tão complicado

Ela conta 95 anos. Lugar esse aonde nem em meu maior momento de otimismo imagino chegar.
E, ainda assim, preserva o gesto raríssimo de esperar. De esperar alguém que achava que não tinha tanta importância assim, pra ela, que esperava.

Cheguei levando comigo uma ansiedade recolhida,
não feita de pressa ou inquietação, mas de consciência silenciosa que precede encontros importantes.
Era menos nervosismo e mais a sensação de estar à beira de algo especial e essencial.

Durante muitos anos, essa visita existiu apenas como intenção.
Planejada no pensamento, adiada na vida.
As exigências do mundo, as obrigações que se impõem com aparência de urgência, barreiras criadas por mim foram empurrando o essencial para um lugar ilusório chamado “depois”.
E assim adiei.
Não por falta de saudade ou de amor, mas por ter permitido que a vida
confundisse prioridade com necessidade.

Até que um dia alguém especial me disse, com lucidez e cuidado: Chega!
— Chega! Chega de adiar, chega de ficar sofrendo sem motivo.
Sofrer pra quê, homem, se nada existe de maior valor do que aqueles que amamos e que já estão tatuados na nossa vida, na nossa formação e na nossa história?

Soube então que ela estava ansiosa e à minha espera.
Essa revelação desarmou tudo em mim.
Ali compreendi que já não se tratava apenas de visitá-la, mas de atender a um chamado, ao chamado da minha alma e do meu coração.

Quando atravessei a porta da casa dela, algo que eu não esperava aconteceu:
 Senti minha essência me resgatando, como há muito não fazia.

Uma recuperação do lugar de onde realmente vim.

Ao entrar na sala, voltei a ter sete anos.

Logo vi o sofá vermelho que não existe mais!
E, de repente, em tudo o que eu olhava, eu também me via.
O espaço não era apenas um lugar. Era memória! A minha memória!

Um simples ventilador me emocionou.
Era o mesmo de quarenta anos atrás.
Lembrei logo do ventilador, da máquina de costura, da porta da sala, do banheiro, das bonecas que já não estavam mais sobre a cama que antes era da minha prima,
e da geladeira branca e antiga na cozinha.
Nada era apenas objeto.
Tudo era vestígio.
Tudo me devolvia à melhor época da minha vida.

Os anos passaram, mas a casa permaneceu guardiã do que um dia fui.

Ela estava lúcida, ativa, presente.
E, sobretudo, intacta no carinho.
O mesmo carinho que me acolheu na infância e que, sem que eu percebesse, teve responsabilidade em moldar quem eu sou hoje.

Só podia ter ficado uma hora.
Fiquei, sei lá, quatro!!
Porque ali o tempo teve que entender que não podia apressar o reencontro com a própria origem.

O sorriso dela não era exuberante.
Era curto, singelo, porém pleno.
A serenidade de quem ama sem exigir, de quem reconhece sem cobrar, de quem permanece com muita autoridade.

Talvez eu tenha ido vê-la.
Mas foi eu quem fui visitado, visitado pela versão mais verdadeira de mim mesmo.

Nesse dia entendi que algumas casas não apenas abrigam pessoas. Abrigam histórias, identidades, raízes e afeto.
E que enquanto ainda há encontro, há motivo e sentido.

Há pessoas e amores que não te acompanham durante a vida.
Eles a fundam e estão no lugar mais importante, na nossa base.

Parabéns e obrigado, dona Laurinda, por atravessar o mais implacável dos vilões. O tempo!


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