Cebola à milanesa em uma mesa, ao lado da lembrança de Dona Enedina.

Dona Enedina e a cebola á milanesa

Durante anos, ensaiei uma visita. 
Dona Enedina era a mãe de um grande amigo, um irmão na verdade. Sempre me recebeu com afeto, com aquele olhar de quem sabia mais do que dizia e dizia mais do que parecia. Me chamava de “Daio”, com aquele tom de quem já me tinha no coração, e sempre perguntava: 
“Cadê o Daio que sumiu?”

E toda vez que eu aparecia, fazia cebola à milanesa. Especialmente pra mim. 
Porque sabia que eu gostava muito. Pequenos gestos que, na época, pareciam só carinho, hoje, vejo que eram amor em estado puro.

Mas o tempo… ahhh, o tempo tem essa mania de nos colocar em espera. 
“Depois eu vou.” 
“Semana que vem.” 
“No próximo feriado.” 
E a vida foi me engolindo em compromissos, planos, rotinas. 
E eu fui ficando… ficando na vontade.

Até que um dia adoeci. 
Fiquei internado, desacordado, confuso. Foram 25 dias entre fios e silêncios. 
Soube depois que ela esteve lá. Não sei como ficou sabendo. Nem me lembro de te-lâ visto. 
Mas ela foi. Porque coração bom sabe quando é hora de ir, mesmo sem convite.

E então, veio a ligação. 
“Daio, mamãe morreu hoje.”

Silêncio. 
Aperto no peito. 
Um gosto amargo de cebola crua me veio à boca. 
Aquela que fritava com cuidado, com paciência e ternura, já não estaria mais ali. 
E eu não fui.

Desde então, carrego comigo esse verso, para nunca mais ficar só esperando o momento oportuno:

Fiquei na vontade, até que ela se foi. 
Agora é à vontade quem fica em mim, 
talvez até que eu me vá.

Dona Enedina, onde estiver, saiba: o Daio nunca esqueceu.


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