O Último Domingo

Um dia, vou deitar para dormir e, nessa noite, vou ter a melhor noite de amor com minha mulher.

Não somente sexo, mas amor.

Ela vai me dizer o quanto me ama e o quanto sou importante para ela.

Será na madrugada de sábado para domingo.

Depois de uma noite exaustiva de amor, adormeceremos juntos.

Na manhã de domingo, ela diz que vai preparar o café da manhã.

Sai até a padaria em frente de casa e compra tudo o que gosto:

pãozinho com queijo derretido, croissant, petit four e muito mais.

Decidimos então ficar em casa,

esse domingo será apenas nosso,

assistindo filmes e séries que há tempos desejamos terminar.

Eu, deitado no colo dela, recebendo cafuné e carinhos incansáveis.

Às vezes revezamos esse gesto,

e o domingo se torna maravilhoso.

Ela decide não pedir nada pronto pra comer, mas cozinhar para mim.

Faz tudo o que mais gosto, e a tarde segue entre séries e cafuné.

Então chega a noite.

Já são oito horas e resolvo tomar banho.

Como comi bastante do que amo, passo antes no banheiro.

Vejo sangue nas fezes.

Fico apreensivo: não tomei nenhum medicamento que pudesse dilatar meus vasos.

Decido procurar um médico logo na segunda-feira.

Na consulta, ele diz que não deve ser nada, mas pede uma colonoscopia.

O resultado chega: sarcoma de Kaposi em estágio avançado.

Esse é o final do melhor domingo que já tive.

E me pergunto: o que, de fato, levarei do melhor dia da minha vida com minha família? Se é que se leva alguma coisa!

É isso o que significa esperar que Deus decida tudo.

Mas será que é melhor assim? Ou seria melhor cada um decidir seu próprio momento? E, muito provavelmente, ninguém escolheria o dia de domingo.


Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *